O bem que faz uma oposição



Érico Firmo - Na semana passada, a Assembléia Legislativa aprovou a redução do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) que incide sobre o diesel para o transporte coletivo de passageiros. Num primeiro momento, a medida valeria apenas para Fortaleza. Após pressão da bancada tucana - a maior da Assembléia - o Governo do Estado enviou mensagem propondo a redução para o transporte, em todo o Estado, mas apenas dentro de cada município.

Era pouco. Além de Fortaleza, apenas Maracanaú, Caucaia, Sobral e Juazeiro do Norte possuem sistema de ônibus em circulação na cidade. Seriam os únicos municípios contemplados. O PSDB continuou a pressão e se articulou, criando uma ameaça real de derrota do Governo. Cid Gomes (PSB) reagiu e ameaçou até retirar a medida. Foram horas tensas de negociação. No fim, ambos os lados cederam. O benefício acabou ampliado para o transporte intermunicipal em toda a Região Metropolitana. A extensão para os ônibus que circulam entre os municípios no resto do Estado não foi aprovada agora, mas será avaliada até o fim do semestre.

A população saiu ganhando. Isso porque foi um dos raros momentos nos quais a gestão Cid Gomes enfrentou alguma resistência no Legislativo. E foi a primeira vez em que houve possibilidade real de derrota governista. Também por isso, foi um episódio quase inédito no qual a Assembléia não se limitou a dizer "amém" e teve uma contribuição para aperfeiçoar um projeto governista. Bom para todos.

Infelizmente, foi um episódio isolado. O PSDB permanece tão governista quanto sempre foi. O partido - com todo o inegável mérito que tem na ampliação do benefício para além da Capital - não atuou por sentimento de oposição ao Governo do Estado, tampouco pelo mais elevado compromisso público. Os tucanos nunca esconderam que pretendiam evitar que a prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), colhesse sozinha os méritos de uma medida que, na verdade, foi tomada pelo Estado.

Uma posição absolutamente legítima do PSDB. Faz parte da política. Mas é uma pena que só haja contraponto ao Governo do Estado quando interesses eleitorais e eleitoreiros estão em jogo.

Os tucanos, pelo tamanho, pela força política, poderiam cumprir o papel que lhes foi delegado pelas urnas: o de oposição. E, pelas boas relações com os Ferreira Gomes, poderiam fazer esse contraponto de forma serena, independente, construtiva. Uma pena que tenham preferido ao adesismo puro e simples.

A ampla maioria governista - com apenas dois minguados opositores - não interessa à oposição e faz mal até ao Governo.

ELEFANTE BRANCO

A Prefeitura do Rio de Janeiro abriu concessão para ceder a um dos grandes clubes de futebol da cidade a administração do Parque Aquático Municipal Maria Lenk. O clube interessado - até agora apenas Flamengo e Fluminense se apresentaram - terá de pagar uma merreca, em troca de um equipamento de ponta que será seu pelas próximas décadas.

O parque foi construído para os Jogos Pan-Americanos do ano passado. Custou R$ 75 milhões, quase tudo custeado por recursos municipais e federais. Poderia estar sendo utilizado em programas de integração de crianças e adolescentes pobres por meio do esporte. Mas é hoje um gigantesco e belíssimo elefante branco. Assim como ocorreu com o moderníssimo estádio João Havelange, já cedido ao Botafogo.

Infra-estrutura pública, com tecnologia de ponta, construída com dinheiro da viúva e que, por falta de utilidade para a população carioca, será entregue a um clube privado - todos eles, os potenciais concorrentes, devendo milhões aos cofres públicos. Que sirva de exemplo para que o mesmo não se repita com o que será construído para a Copa de 2014.

O MOMENTO E AS OBRAS

A gestão Luizianne Lins (PT), no fim do mandato, começa a ganhar um ritmo que não conhecera até então. O Hospital da Mulher foi anunciado, obras na Praia de Iracema, investimentos em habitação e saneamento. Difícil dissociar o trabalho do ano eleitoral. E a grande dúvida: há tempo para mostrar resultado?

Antes da eleição de 2006, esta coluna tratou dos gastos do governo Lúcio Alcântara (então no PSDB, hoje no PR). No último ano de mandato, os investimentos em obras, que em geral haviam ficado em torno de R$ 500 milhões anuais, saltaram para mais de R$ 1 bilhão, recorde absoluto na história do Estado. Aqui se registrou que o Ceará estava sendo convertido em um canteiro de obras, mas que a população só veria o resultado após a eleição.

Resultado: afora algumas obras que tiveram de ser paralisadas por falta de dinheiro, logo após a derrota de Lúcio, grande parte daqueles investimentos estão sendo hoje inaugurados por Cid Gomes. O que faz lembrar aquelas placas: "Desculpe o transtorno, estamos trabalhando para melhor servi-lo". No caso de Lúcio, a população só conheceu o transtorno. O melhor serviço ficou para ser apresentado pelo antecessor. Em tempo: no caso de obras dentro do espaço urbano, o transtorno é ainda mais perceptível. - www.opovo.com.br/